Carlos não era conhecido por ser um sujeito falante e sociável. Diferente dos colegas de classe, não se envolvia nos seus programas de fim de semana e não matava aulas pra curtir as garotas na arquibancada do campo de futebol. Ele se limitava a ouvir Interpol, Muse e The Killers em seu iPod, geralmente escrevendo em seu caderno. Ele era antisocial e fora rotulado como tal. Mas ninguém se atrevia a fazer pouco caso disso muito perto dele. Pelo menos não mais.
Certa vez no vestiário, o valentão da classe, um atleta com muitos músculos e pouco cérebro, reclamou que Carlos estava respirando o mesmo ar que ele. Ao redor deles, outros atletas se reuniram e silenciaram para ouvir, aguardando como hienas para destroçar a carniça deixada pelo leão. O rapaz calado olhou bem nos olhos de seu adversário e murmurou algumas palavras inaudíveis para todos, exceto para o valentão. Se fosse possível ver uma montanha desmoronar, seria uma boa descrição para a cena. Ninguém jamais soube o que aconteceu ali, entre os dois. Mas o medo instaurado no valentão foi o suficiente para que todos se afastassem daquele estranho.
Aquela não fora a única vez que ele intimidara alguém. Sempre que alguém se colocava em seu caminho, fosse um jogador, patricinha, roqueiros, emos ou nerds, ele sempre tinha algo a falar que colocava a pessoa em seu devido lugar. Mas ele nunca humilhava uma pessoa publicamente. Falava baixo, calma e controladamente. Ele parecia entender as pessoas, parecia desvendar seus segredos ocultos. Mas não estava interessado em lançar informações na roda dos boatos.
Ele também era motivo tanto de orgulho quanto de irritação para os professores. É verdade que ele era um gênio com opiniões fortes e críticas bem construídas em suas provas e trabalhos. Os professores costumavam comentar entre si que Carlos possuía uma percepção muito aguçada. Ele entendia melhor do que todos o sentido por trás dos textos passados em classe e a forma como os mestres questionavam os alunos a respeito. Era quase como se ele fosse super dotado.
Mas não importava o dia, a hora ou a classe, ele insistia em manter os fones de ouvido, que tentava esconder sob o boné e o capuz do agasalho. Quando questionado, dizia que estava desligado, apesar de não estar. Alguns professores eram mais radicais e ameaçavam confiscar o aparelho, fazendo Carlos se render. O único problema era que, sem a música tocando, o rapaz sentia-se extremamente tenso. Seu corpo tremia, ele olhava para os lados incomodado, batia com a ponta da caneta na mesa e com a ponta dos pés no chão. Era como se ouvisse uma frequência muito irritante que o perturbava. Aquilo apenas aumentava o grau de estranhice dele entre os colegas.
Logo após voltar da escola, estar em casa era o mesmo que encontrar a paz, a solidão e o silêncio tão almejados. Com os pais trabalhando e a irmã mais velha no curso integral da faculdade, Carlos aproveitava a companhia de seu cachorro. Se desligava da música, da televisão e até mesmo da Internet. Aquelas breves horas sozinho eram seu momento de deleite de cada dia. Coçou atrás da orelha do labrador preto, sentado diante de sua poltrona, cujo focinho estava pousado sobre o joelho de seu dono. Fechou os olhos com um sorriso que transmitia sua tranquilidade e dormiu.
***
“Dormindo na sala de novo, maninho? Eu invejo sua tranquilidade. Estamos prestes a ser despejados, o emprego do papai não vai nada bem, mamãe está ficando doente de novo e eu estou ‘atrasada’. Tudo o que falta para despedaçar nossa família de vez é você pôr tudo a perder nos estudos. Ou tornar-se um drogado. Espero que essa sua nova fé nessa igrejinha que começou a frequentar nos salve pois, aparentemente, você não tem nenhum problema como o resto de nós, não é?”
- Jéssica, você precisa entrar em casa todo dia reclamando da vida com o seu volume no máximo?- perguntou Carlos, esfregando os olhos – Desculpe se te incomodo, é que o clima está muito gostoso pra dormir.
Focou sua visão na irmã, ainda na porta abraçando o fichário sobre si e com as chaves da porta ainda penduradas na tranca. Sua expressão era de confusão.
- Ou você estava tendo um pesadelo comigo ou está mesmo muito mal humorado.- Jéssica tirou a chave da fechadura e fechou a porta atrás de si, os cabelos vermelhos esvoaçantes acompanhavam seus movimentos como uma cortina – Mas olá pra você também, adoro chegar em casa levando patada.
Carlos pôs os dedos nos olhos, fazendo pressão sobre eles para que se animassem e enxergasse melhor, percebendo o óbvio da situação que acabara de ocorrer.
- Você não disse nada quando abriu a porta e me viu dormindo, não é?
- Porquê eu incomodaria toda a sua paz e tranquilidade, maninho? De qualquer forma, desculpe se o acordei. Melhor continuar isso no seu quarto.
Ele subiu as escadas seguido pelo cachorro e encostou a porta. Ligou o Notebook na tomada e logou. Pegou o iPod e aumentou o volume, ao som de U2. Ficou ouvindo One enquanto abria as páginas que via todos os dias. “Não posso mais ficar pagando mico desse jeito”, pensou consigo mesmo. “Preciso aprender a me concentrar e parar de ficar ouvindo os pensamentos de todas as pessoas que estão ao meu redor”.
O dom da telepatia andava com ele há quase um ano e pareceu divertido a princípio. Ele não precisava colar nas provas, mas ouvir os questionamentos dos colegas e descobrir as pegadinhas dos professores o ajudou a tornar-se o diferencial. Não queria entrar num embate físico com o valentão da classe, então se viu obrigado a ameaçá-lo contando a todos sobre seu envolvimento com Doping, o que iria prejudicá-lo nas competições onde representava a escola. E claro que sabia o que sua família estava para enfrentar, por isso se esforçava para garantir sua vaga em uma boa universidade e procurava por um bom emprego.
Por outro lado, sua mente captava informação demais sempre que andava em público. Quando estava na escola, em meio aos colegas de classe, era pior ainda. Ele ainda não encontrara uma forma eficiente de isolar o áudio em sua mente. A música bloqueava apenas parte dos pensamentos que ouvia. Geralmente ligados aos sentimentos das pessoas, a frequência dos pensamentos soava muito mais alta que frequências audíveis normais na mente de Carlos. Por isso seu corpo reagia fora de seu controle. Em alguns momentos, ele podia jurar que estava ficando louco.
Mas seus instintos o fizeram parar tudo o que estava fazendo. Algo acima das frequências as quais estava acostumado foi de encontro a ele. Uma mente perturbada e embriagada aproximava-se em alta velocidade. Correu para a janela a tempo de ouvir o som inconfundível de pneus marcando o asfalto e um corpo sendo atingido e jogado ao longe. Pôde ouvir os ossos da vítima se partindo com o impacto e depois com a queda. E ouviu todo o pânico dos mil pensamentos dela enquanto, confusa, fora atirada ao ar, indo de encontro ao chão.
Não se incomodou com os latidos do cachorro enquanto pulava a janela e corria sobre as telhas, saltando sobre o jardim que sua mãe cultivara. Correu em direção ao corpo estirado ao chão. Já havia um rapaz junto à vítima, uma mulher de meia idade. Os vizinhos começaram a sair de suas casas. No carro, que havia encostado no meio-feio, o jovem embriagado afastou a cabeça do volante, revelando um fio de sangue. Imediatamente deu a partida e passou velozmente ao lado dos dois e da vítima. Carlos conseguiu captar os pensamentos dele e descobriu um endereço. Aquilo não ficaria impune.
- Acho que ela vai ficar bem.- disse o rapaz de cabelos loiros arrepiados que estava com ela – Melhor eu ir chamar uma ambulância e a polícia. Conseguiu ver a placa do carro?
- Claro. – Carlos tinha uma memória bem desenvolvida também – Como pode ter certeza que ela vai ficar bem? Deve estar toda quebrada por dentro.
- Não é o que parece. Pra mim, parece um milagre. – e o garoto correu noite adentro.
A mulher se sentou e tocou as costelas, as pernas e o pescoço. Carlos ficou assombrado ao ver que, apesar do sangue em seu rosto e nas roupas, ela não tinha nem um arranhão. Pediu para a moça, que agora caía no choro, que ficasse imóvel e avisou que a ambulância já estava a caminho. Em sua mente, sabia muito bem que o garoto misterioso que socorrera a vítima de atropelamento também havia a curado completamente, salvando sua vida. Ele não era o único com um dom por ali.
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