(Alerta de Spoilers — se você ainda não assistiu ao filme, não prossiga)
Se você soubesse que tudo aquilo que você viveu, tudo aquilo que ama, tudo aquilo que conhece está para terminar, o que você faria? Se lhe dissessem que os céus vão escurecer, que a terra vai se mover sob seus pés e que o mar está vindo furioso ao seu encontro, qual seria sua reação? Você ficaria ao lado das pessoas que ama e esperaria a morte? Ou arriscaria até o último fôlego de vida em uma tentativa desesperada de sobreviver?
Ou até pior: você gastaria tudo o que tem e tudo o que não tem para fabricar sua própria salvação? Porque, ao meu ver, 2012 é uma desculpa esfarrapada para um bando de gente endinheirada mostrar porquê vai se safar. Em um mundo à beira do colapso onde o único fim previsível é a extinção da raça humana, o melhor que o mundo desenvolvido pode fazer é investir uma quantia absurda de dinheiro em meios que poderão garantir sua sobrevivência no final. Ou seja, o futuro é dos ricos e poderosos que têm o cacife pra bancar suas próprias arcas de Noé. Sinceramente, quem quer viver em um mundo governado pela alta e hipócrita sociedade?
O novo sucesso de bilheteria de Roland Emmerich, que já esteve por trás de Independence Day e O Dia Depois de Amanhã, é eficiente na proposta de destruir os Estados Unidos como o conhecemos. Embora 2012, ano fatídico da História da Humanidade previsto há milhares de anos pela Civilização Maia, seja a próxima data do suposto fim do mundo, o filme restringe-se a mostrar com louvor o Big One, o temido terremoto que destruiria de vez a falha de San Andreas e condenaria o Estado da Califórnia ao abismo entre placas tectônicas. Mostra também a erupção do mega vulcão adormecido sob as planícies de Yellowstone, parque nacional onde reside o bem conhecido por nós Zé Colméia. O Havaí então, converte-se em uma ilha em chamas. A Casa Branca, uma vez mais não ficará de pé. Por fim, o deslocamento da crosta terrestre faz do Wisconsin o novo Pólo Sul do planeta e gera os tsunamis mais fenomenais do cinema, aniquilando tudo em seu caminho sem que nada os detenha.
O meu ponto é: pra uma data que engloba toda a raça humana, o filme mostrou muito pouco e em péssima qualidade as catástrofes ao longo do globo. Se você brasileiro estava ansioso para ver o Cristo Redentor bater palmas, vai ver numa tela minúscula de TV em qualidade digna do Youtube. A queda do Vaticano? Só para constar e para mostrar que não é apenas a América do Norte que está sendo riscada do mapa. O Tibet sob as águas? Dá a impressão de que não passa de montanhas e neve [onde estão todos os monges, pelo amor de Deus?]. E me atrevo a dizer mais: você provavelmente já viu o que o filme tem de melhor a oferecer só nos trailers. A película completa nada mais é do que uma versão extendida de seus teasers acrescida de longas horas de “encheção de linguiça”.
Sobre o elenco, não há muito o que falar. O maior destaque fica para o sempre ótimo Woody Harrelson [de Zombieland, em breve nos cinemas] que aqui encarna um radialista com um programa e website conspiratórios que sabe mais sobre o vindouro fim dos dias do que muitos americanos ignorantes. Uma pena criar um personagem tão interessante que não teve a mesma oportunidade em tela do que seus colegas.
John Cusack e Amanda Peet apenas cumprem o que lhes é pedido sendo o casal separado com filhos que tenta sobreviver ao colapso mundial. Sem deixar uma interpretação marcante, ao menos John Cusack e seu rival, o novo namorado de Amanda Peet, se destacam como um motorista habilidoso e um piloto nato respectivamente à medida que fogem e se esquivam da destruição ao seu redor. Aliás, chega a ser irritante a insistência do roteiro em colocar brechas e fendas sempre ou entre os personagens ou sob eles. O mundo está se destruindo ou quer apenas enterrar o elenco principal?
Danny Glover também não se destaca como a contraparte de Barack Obama na Presidência dos Estados Unidos. O que era pra ser seu momento de glória ao se dirigir à nação e revelar seu inevitável fim foi cortado em rede nacional logo que começou a citar o Salmo 23. Quer dizer… a melhor chance de conferir profundidade dramática e ilustrar ao fundo a destruição em escala global e eles simplesmente cortam o texto? Roland Emmerich perdeu uma ótima oportunidade de criar um contraste entre um dos mais belos textos bíblicos com o fim da raça humana esmagada, queimada ou afogada. Se era pra ser assim, qual a finalidade de uma declaração presidencial? Porque escolher um texto que jamais seria lido até o final?
Falando em cortes, chega a ser absurda a pouca atenção dada a destruição. Em alguns momentos, a cena está tão concentrada no percurso do veículo dos protagonistas, seja por terra, ar ou mar que tudo o que está acontecendo ao redor perde destaque. Tudo acontece muito rápido, o que afeta a dimensão da queda da California, o tsunami que aniquila Washington DC e é cortado abruptamente, a decolagem em Yellowstone e depois em Las Vegas. O que está acontecendo é bonito de se ver e chega a ser realmente tenso, mas faltou uma maior visualização do estrago causado.
2012 pode passar desapercebido de todas essas falhas que identifiquei e ser uma boa diversão se não for levado a sério demais. O problema é que se você criou expectativa demais, como eu, pode sair decepcionado. Afinal de contas, é um filme para toda a família. Então, apesar de quase nada restar de pé ao fim da história, o que restou da humanidade ainda nutre esperanças de recomeçar. Aliás, já existem planos para uma série chamada 2013. Logo, já dá pra prever como essa história vai terminar. E depois de Roland Emmerich ter destruído o mundo de tantas formas, o que mais resta a ele nos mostrar?
É triste porém constatar que se fosse este mesmo o caso e o fim estivesse próximo, apenas a alta classe social que rege o mundo é que seria informada antecipadamente e poderia pagar sua entrada para o novo mundo. Se a catástrofe envolve toda a Terra, não seria a hora de todos se unirem, esquecer as diferenças, o dinheiro, as dívidas e trabalhar juntos para construir o que fosse para que todos tivessem a chance de sobreviver?



