Projetos 2010

Este é o post 10 que abre 2010 para o ESP&G. Antes de mais nada, o hiato foi um período de muito trabalho e pouca inspiração. Agora, com a proximidade das férias – mas com a mesma quantidade de trabalho – algumas poucas idéias vem surgindo.

Nos próximos 10 tópicos, seguem planos para este blog, outro blog e para mim mesmo:

1. #projeto30kg: quem acompanha meu Twitter já viu que estou engajado na idéia de subtrair 30kg da minha massa corporal antes que 2010 acabe. Devo perder 2,5kg/mês, totalizando 15kg por semestre. Já disse adeus ao BK, Bobs, Mac, Habibs e outros. Refrigerante, chocolate, batata frita e outras coisas foram cortadas. Em caso de emergência, não posso exagerar e tenho que compensar. Até a presente data, perdi somente 1kg.

2. contos: tenho tido várias idéias de contos para publicar no blog. Poderia até fazer uma coletânea e publicar impresso, visando alguma graninha quem sabe. O que nos leva ao tópico seguinte;

3. Miracle: não abandonei o conto e tenho uma idéia geral de como continua, embora ainda não saiba como termina. Pessoas com poderes? Isso não é novidade. Mas talvez a fonte e o propósito façam alguma diferença;

4. Dreams: continuarei a postar narrativas inspiradas em meus sonhos. Aliás, minha Hattori Hanzo, presente do querido @pvromeiro, tem sido presença constante em batalhas contra Thanators e até vampiros purpurinados [ui!];

5. Críticas: pretendo fazer o curso de críticas cinematográficas do Pablo Villaça em março e empregar o conhecimento adquirido na crítica de qualquer filme que eu assistir, seja no cinema seja em home video. Um exercício pra me preparar para o futuro;

6. Histórias de Faculdade: se der certo de voltar pra facul esse ano, com certeza trarei histórias desse mundo cão;

7. Histórias de Noivado: sim, sras e srs, Israel vai casar com @Ariizinha. O noivado sai ainda este ano e pretendo compartilhar os primeiros passos de um casal indo a loucura antes das bodas;

8. Testemunhos: será um espaço dedicado a minha fé, com breves relatos de como é duro ser cristão em um mundo dedicado a te derrubar e esmagar. E ser cristão a sério hoje é isso: pagando o preço por ser diferente.

9. Saga: a tentativa de ressuscitar e alavancar minha saga em 2009 foi um #epicfail. O máximo que consegui produzir foi uma coletânea de prólogos. Esse ano vai acontecer. Já dizia Mestre Yoda: “tentativas não há; faça ou não faça”. Pois bem, farei e compartilharei trechos.

10. Outro blog: estou com uma idéia simples e humilde para um novo blog voltado exclusivamente pra nerdices e cinema em geral. Já tenho o nome, tenho idéia do design e, se der certo, o link com certeza estará aqui.

Por hoje é só, pessoal, mais novidades virão via Twitter, fiquem ligados!

http://twitter.com/ispinho

2012

Cristo Redentor

Será que o Cristo Redentor vai bater palmas?

(Alerta de Spoilers — se você ainda não assistiu ao filme, não prossiga)

Se você soubesse que tudo aquilo que você viveu, tudo aquilo que ama, tudo aquilo que conhece está para terminar, o que você faria? Se lhe dissessem que os céus vão escurecer, que a terra vai se mover sob seus pés e que o mar está vindo furioso ao seu encontro, qual seria sua reação? Você ficaria ao lado das pessoas que ama e esperaria a morte? Ou arriscaria até o último fôlego de vida em uma tentativa desesperada de sobreviver?

Ou até pior: você gastaria tudo o que tem e tudo o que não tem para fabricar sua própria salvação? Porque, ao meu ver, 2012 é uma desculpa esfarrapada para um bando de gente endinheirada mostrar porquê vai se safar. Em um mundo à beira do colapso onde o único fim previsível é a extinção da raça humana, o melhor que o mundo desenvolvido pode fazer é investir uma quantia absurda de dinheiro em meios que poderão garantir sua sobrevivência no final. Ou seja, o futuro é dos ricos e poderosos que têm o cacife pra bancar suas próprias arcas de Noé. Sinceramente, quem quer viver em um mundo governado pela alta e hipócrita sociedade?

O novo sucesso de bilheteria de Roland Emmerich, que já esteve por trás de Independence Day e O Dia Depois de Amanhã, é eficiente na proposta de destruir os Estados Unidos como o conhecemos. Embora 2012, ano fatídico da História da Humanidade previsto há milhares de anos pela Civilização Maia, seja a próxima data do suposto fim do mundo, o filme restringe-se a mostrar com louvor o Big One, o temido terremoto que destruiria de vez a falha de San Andreas e condenaria o Estado da Califórnia ao abismo entre placas tectônicas. Mostra também a erupção do mega vulcão adormecido sob as planícies de Yellowstone, parque nacional onde reside o bem conhecido por nós Zé Colméia. O Havaí então, converte-se em uma ilha em chamas. A Casa Branca, uma vez mais não ficará de pé. Por fim, o deslocamento da crosta terrestre faz do Wisconsin o novo Pólo Sul do planeta e gera os tsunamis mais fenomenais do cinema, aniquilando tudo em seu caminho sem que nada os detenha.

O meu ponto é: pra uma data que engloba toda a raça humana, o filme mostrou muito pouco e em péssima qualidade as catástrofes ao longo do globo. Se você brasileiro estava ansioso para ver o Cristo Redentor bater palmas, vai ver numa tela minúscula de TV em qualidade digna do Youtube. A queda do Vaticano? Só para constar e para mostrar que não é apenas a América do Norte que está sendo riscada do mapa. O Tibet sob as águas? Dá a impressão de que não passa de montanhas e neve [onde estão todos os monges, pelo amor de Deus?]. E me atrevo a dizer mais: você provavelmente já viu o que o filme tem de melhor a oferecer só nos trailers. A película completa nada mais é do que uma versão extendida de seus teasers acrescida de longas horas de “encheção de linguiça”.

Sobre o elenco, não há muito o que falar. O maior destaque fica para o sempre ótimo Woody Harrelson [de Zombieland, em breve nos cinemas] que aqui encarna um radialista com um programa e website conspiratórios que sabe mais sobre o vindouro fim dos dias do que muitos americanos ignorantes. Uma pena criar um personagem tão interessante que não teve a mesma oportunidade em tela do que seus colegas.

John Cusack e Amanda Peet apenas cumprem o que lhes é pedido sendo o casal separado com filhos que tenta sobreviver ao colapso mundial. Sem deixar uma interpretação marcante, ao menos John Cusack e seu rival, o novo namorado de Amanda Peet, se destacam como um motorista habilidoso e um piloto nato respectivamente à medida que fogem e se esquivam da destruição ao seu redor. Aliás, chega a ser irritante a insistência do roteiro em colocar brechas e fendas sempre ou entre os personagens ou sob eles. O mundo está se destruindo ou quer apenas enterrar o elenco principal?

Danny Glover também não se destaca como a contraparte de Barack Obama na Presidência dos Estados Unidos. O que era pra ser seu momento de glória ao se dirigir à nação e revelar seu inevitável fim foi cortado em rede nacional logo que começou a citar o Salmo 23. Quer dizer… a melhor chance de conferir profundidade dramática e ilustrar ao fundo a destruição em escala global e eles simplesmente cortam o texto? Roland Emmerich perdeu uma ótima oportunidade de criar um contraste entre um dos mais belos textos bíblicos com o fim da raça humana esmagada, queimada ou afogada. Se era pra ser assim, qual a finalidade de uma declaração presidencial? Porque escolher um texto que jamais seria lido até o final?

Falando em cortes, chega a ser absurda a pouca atenção dada a destruição. Em alguns momentos, a cena está tão concentrada no percurso do veículo dos protagonistas, seja por terra, ar ou mar que tudo o que está acontecendo ao redor perde destaque. Tudo acontece muito rápido, o que afeta a dimensão da queda da California, o tsunami que aniquila Washington DC e é cortado abruptamente, a decolagem em Yellowstone e depois em Las Vegas. O que está acontecendo é bonito de se ver e chega a ser realmente tenso, mas faltou uma maior visualização do estrago causado.

2012 pode passar desapercebido de todas essas falhas que identifiquei e ser uma boa diversão se não for levado a sério demais. O problema é que se você criou expectativa demais, como eu, pode sair decepcionado. Afinal de contas, é um filme para toda a família. Então, apesar de quase nada restar de pé ao fim da história, o que restou da humanidade ainda nutre esperanças de recomeçar. Aliás, já existem planos para uma série chamada 2013. Logo, já dá pra prever como essa história vai terminar. E depois de Roland Emmerich ter destruído o mundo de tantas formas, o que mais resta a ele nos mostrar?

É triste porém constatar que se fosse este mesmo o caso e o fim estivesse próximo, apenas a alta classe social que rege o mundo é que seria informada antecipadamente e poderia pagar sua entrada para o novo mundo. Se a catástrofe envolve toda a Terra, não seria a hora de todos se unirem, esquecer as diferenças, o dinheiro, as dívidas e trabalhar juntos para construir o que fosse para que todos tivessem a chance de sobreviver?

Dream 1

Em um primeiro momento, percebi que tudo parecia deserto demais ao nosso redor. Estávamos em um sedan e, por algum motivo que não sei explicar, não corríamos na estrada onde não havia tráfego. Os três trajavam ternos pretos e óculos escuros. E chapéus. Muito sociais pra um lugar quente como aquele, fosse onde fosse. Aquele podia ser um cenário de faroeste: areia, pedras, rochedos com formas bizarras, bolas de mato seco rolando. E um cogumelo roxo gigante a quilômetros de nós.

No segundo momento, homens com roupas radioativas brancas e estranhas máscaras com respiradores acenavam na estrada diante de nós. Havia cones, barreiras e todos gesticulavam para pegarmos um atalho, um verdadeiro caminho das rochas. Eu saí do carro. Não estava acostumado a dar ouvidos a autoridades, muito menos ratos de laboratório. O que vi era o massacre mais esquisito que já tinha ouvido falar. E de alguma forma, lembrava uma cena chocante de Star Wars. Havia esqueletos ao longo da estrada, diante de uma indústria química que foi pelos ares. Esqueletos negros, carbonizados. Restos de carne humana e roupas, destruídos.

Ok, isso é obra de uma família rival. Estão destruindo um bom negócio da minha família. Sim, essa indústria nos pagava por proteção e nós falhamos com eles. Agora, temos que ir até a capital derrubar os miseráveis. E vamos levar AK-47, .44 e .12. Tudo que tivermos em mãos. Não haverá tortura, não haverá prisioneiros, não haverá misericórdia. Nós iremos tomar Brasília, antes que os ratos tomem o lugar.

E, de repente, é o 3º momento: não há mais areia, esqueletos e nerds vestidos em roupas antiradioativas. De repente, estamos passando em frente ao Planalto. Eu vim para Brasília apenas uma vez, quando era muito pequeno para lembrar. E aqui estou eu, com esse terno e essas armas. Pegamos mais dois caras no caminho. Somos cinco agora e vamos para um Hotel bem luxuoso. Vamos encontrar o chefão lá, um político corrupto, por mais que soe redundante. Além de destruir um belo negócio, ainda ameaçou as vidas de toda a maldita capital do país. Acho que posso ser mafioso e justiceiro ao mesmo tempo.

Bastou passar pelas portas giratórias para os seguranças a paisana nos alvejarem com balas e cápsulas de calibre .12. Resolvemos apelar para o elemento surpresa. Eles jamais esperariam um ataque não-planejado. Não é de nossa natureza sermos imprudentes. Mas hoje sabemos que era uma boa idéia. E me senti como em A Balada do Pistoleiro. Cada tiro de .12 fazia os desgraçados voarem contra as paredes e janelas. Móveis e portas e vidros e copos e American Bars se espatifando em milhares de pedaços.

Subimos pelas escadas, dois dos nossos ficaram no saguão caso o Chefão resolvesse fugir. Nossas munições não se esgotavam. Vi mulheres de lingerie fugindo de seus quartos. O hotel estava sendo usado como bordel para os corruptos. Não poupamos ninguém. Não sei de onde tirei um coquetel molotov, mas atirei um em cada quarto. Não estava ali pra derrubar só o chefão. Ia derrubar o prédio inteiro em cima dele.

De repente, estamos na suíte presidencial. Homens e mulheres armados por trás das pilastras. Agora era como estar na Matrix. Destroços de pedras e azulejos voando pelo ar seguidas por nuvens de poeira. O barulho incessante das metralhadoras cuspindo suas balas era como sinfonia em minha cabeça. O telefone tocou em algum lugar. Senti uma bala cortando minha perna. Outra se alojou no meu ombro. Outra levou embora meu chapéu, raspando minha cabeça. Meus colegas estavam no bagaço também. Restava o Chefão.

O telefone tocava. Manquei até o homem de luvas pretas cujo chapéu ocultava seus olhos. Sacou do sobretudo aquela típica metralhadora de gângster. Apontou pra minha barriga e disparou. Fui mais rápido e travei a arma entre meu braço esquerdo e minhas costelas, deixando ele atirar e o calor da metranca me queimar. O telefone tocava. Meu punho direito abria um buraco maior na boca do filho da mãe. E, de repente, eu o empurrei janela abaixo. Parecia jorrar fumaça preta de cada janela lá embaixo. E o telefone tocava.

Atendi. Era ela. A única pra mim.

– Você sabe que eu não posso mais. Não com o homem que você se tornou. Você deixou de ser meu quando quis ser você mesmo.
– Espere por mim. Eu já acabei por aqui.
– Não posso esperar pra sempre.
– Eu volto logo. Não saia daí.

Meus colegas, no chão, fizeram positivo com as mãos. Eu podia ouvir as sirenes. Se sobrevivêssemos, não haveria rivalidade no controle da Capital. Talvez, quando as feridas se fechassem, fosse possível dar um novo rumo ao país. Mas é claro que isso tudo não passa de mais um sonho.

Miracle – Parte 1

Carlos não era conhecido por ser um sujeito falante e sociável. Diferente dos colegas de classe, não se envolvia nos seus programas de fim de semana e não matava aulas pra curtir as garotas na arquibancada do campo de futebol. Ele se limitava a ouvir Interpol, Muse e The Killers em seu iPod, geralmente escrevendo em seu caderno. Ele era antisocial e fora rotulado como tal. Mas ninguém se atrevia a fazer pouco caso disso muito perto dele. Pelo menos não mais.

Certa vez no vestiário, o valentão da classe, um atleta com muitos músculos e pouco cérebro, reclamou que Carlos estava respirando o mesmo ar que ele. Ao redor deles, outros atletas se reuniram e silenciaram para ouvir, aguardando como hienas para destroçar a carniça deixada pelo leão. O rapaz calado olhou bem nos olhos de seu adversário e murmurou algumas palavras inaudíveis para todos, exceto para o valentão. Se fosse possível ver uma montanha desmoronar, seria uma boa descrição para a cena. Ninguém jamais soube o que aconteceu ali, entre os dois. Mas o medo instaurado no valentão foi o suficiente para que todos se afastassem daquele estranho.

Aquela não fora a única vez que ele intimidara alguém. Sempre que alguém se colocava em seu caminho, fosse um jogador, patricinha, roqueiros, emos ou nerds, ele sempre tinha algo a falar que colocava a pessoa em seu devido lugar. Mas ele nunca humilhava uma pessoa publicamente. Falava baixo, calma e controladamente. Ele parecia entender as pessoas, parecia desvendar seus segredos ocultos. Mas não estava interessado em lançar informações na roda dos boatos.

Ele também era motivo tanto de orgulho quanto de irritação para os professores. É verdade que ele era um gênio com opiniões fortes e críticas bem construídas em suas provas e trabalhos. Os professores costumavam comentar entre si que Carlos possuía uma percepção muito aguçada. Ele entendia melhor do que todos o sentido por trás dos textos passados em classe e a forma como os mestres questionavam os alunos a respeito. Era quase como se ele fosse super dotado.

Mas não importava o dia, a hora ou a classe, ele insistia em manter os fones de ouvido, que tentava esconder sob o boné e o capuz do agasalho. Quando questionado, dizia que estava desligado, apesar de não estar. Alguns professores eram mais radicais e ameaçavam confiscar o aparelho, fazendo Carlos se render. O único problema era que, sem a música tocando, o rapaz sentia-se extremamente tenso. Seu corpo tremia, ele olhava para os lados incomodado, batia com a ponta da caneta na mesa e com a ponta dos pés no chão. Era como se ouvisse uma frequência muito irritante que o perturbava. Aquilo apenas aumentava o grau de estranhice dele entre os colegas.

Logo após voltar da escola, estar em casa era o mesmo que encontrar a paz, a solidão e o silêncio tão almejados. Com os pais trabalhando e a irmã mais velha no curso integral da faculdade, Carlos aproveitava a companhia de seu cachorro. Se desligava da música, da televisão e até mesmo da Internet. Aquelas breves horas sozinho eram seu momento de deleite de cada dia. Coçou atrás da orelha do labrador preto, sentado diante de sua poltrona, cujo focinho estava pousado sobre o joelho de seu dono. Fechou os olhos com um sorriso que transmitia sua tranquilidade e dormiu.

***

“Dormindo na sala de novo, maninho? Eu invejo sua tranquilidade. Estamos prestes a ser despejados, o emprego do papai não vai nada bem, mamãe está ficando doente de novo e eu estou ‘atrasada’. Tudo o que falta para despedaçar nossa família de vez é você pôr tudo a perder nos estudos. Ou tornar-se um drogado. Espero que essa sua nova fé nessa igrejinha que começou a frequentar nos salve pois, aparentemente, você não tem nenhum problema como o resto de nós, não é?”

– Jéssica, você precisa entrar em casa todo dia reclamando da vida com o seu volume no máximo?- perguntou Carlos, esfregando os olhos – Desculpe se te incomodo, é que o  clima  está muito gostoso pra dormir.

Focou sua visão na irmã, ainda na porta abraçando o fichário sobre si e com as chaves da porta ainda penduradas na tranca. Sua expressão era de confusão.

– Ou você estava tendo um pesadelo comigo ou está mesmo muito mal humorado.- Jéssica tirou a chave da fechadura e fechou a porta atrás de si, os cabelos vermelhos esvoaçantes acompanhavam seus movimentos como uma cortina – Mas olá pra você também, adoro chegar em casa levando patada.

Carlos pôs os dedos nos olhos, fazendo pressão sobre eles para que se animassem e enxergasse melhor, percebendo o óbvio da situação que acabara de ocorrer.
– Você não disse nada quando abriu a porta e me viu dormindo, não é?
– Porquê eu incomodaria toda a sua paz e tranquilidade, maninho? De qualquer forma, desculpe se o acordei. Melhor continuar isso no seu quarto.

Ele subiu as escadas seguido pelo cachorro e encostou a porta. Ligou o Notebook na tomada e logou. Pegou o iPod e aumentou o volume, ao som de U2. Ficou ouvindo One enquanto abria as páginas que via todos os dias. “Não posso mais ficar pagando mico desse jeito”, pensou consigo mesmo. “Preciso aprender a me concentrar e parar de ficar ouvindo os pensamentos de todas as pessoas que estão ao meu redor”.

O dom da telepatia andava com ele há quase um ano e pareceu divertido a princípio. Ele não precisava colar nas provas, mas ouvir os questionamentos dos colegas e descobrir as pegadinhas dos professores o ajudou a tornar-se o diferencial. Não queria entrar num embate físico com o valentão da classe, então se viu obrigado a ameaçá-lo contando a todos sobre seu envolvimento com Doping, o que iria prejudicá-lo nas competições onde representava a escola. E claro que sabia o que sua família estava para enfrentar, por isso se esforçava para garantir sua vaga em uma boa universidade e procurava por um bom emprego.

Por outro lado, sua mente captava informação demais sempre que andava em público. Quando estava na escola, em meio aos colegas de classe, era pior ainda. Ele ainda não encontrara uma forma eficiente de isolar o áudio em sua mente. A música bloqueava apenas parte dos pensamentos que ouvia. Geralmente ligados aos sentimentos das pessoas, a frequência dos pensamentos soava muito mais alta que frequências audíveis normais na mente de Carlos. Por isso seu corpo reagia fora de seu controle. Em alguns momentos, ele podia jurar que estava ficando louco.

Mas seus instintos o fizeram parar tudo o que estava fazendo. Algo acima das frequências as quais estava acostumado foi de encontro a ele. Uma mente perturbada e embriagada aproximava-se em alta velocidade. Correu para a janela a tempo de ouvir o som inconfundível de pneus marcando o asfalto e um corpo sendo atingido e jogado ao longe. Pôde ouvir os ossos da vítima se partindo com o impacto e depois com a queda. E ouviu todo o pânico dos mil pensamentos dela enquanto, confusa, fora atirada ao ar, indo de encontro ao chão.

Não se incomodou com os latidos do cachorro enquanto pulava a janela e corria sobre as telhas, saltando sobre o jardim que sua mãe cultivara. Correu em direção ao corpo estirado ao chão. Já havia um rapaz junto à vítima, uma mulher de meia idade. Os vizinhos começaram a sair de suas casas. No carro, que havia encostado no meio-feio, o jovem embriagado afastou a cabeça do volante, revelando um fio de sangue. Imediatamente deu  a partida e passou velozmente ao lado dos dois e da vítima. Carlos conseguiu captar os pensamentos dele e descobriu um endereço. Aquilo não ficaria impune.

– Acho que ela vai ficar bem.- disse o rapaz de cabelos loiros arrepiados que estava com ela – Melhor eu ir chamar uma ambulância e a polícia. Conseguiu ver a placa do carro?
– Claro. – Carlos tinha uma memória bem desenvolvida também – Como pode ter certeza que ela vai ficar bem? Deve estar toda quebrada por dentro.
– Não é o que parece. Pra mim, parece um milagre. – e o garoto correu noite adentro.
A mulher se sentou e tocou as costelas, as pernas e o pescoço. Carlos ficou assombrado ao ver que, apesar do sangue em seu rosto e nas roupas, ela não tinha nem um arranhão. Pediu para a moça, que agora caía no choro, que ficasse imóvel e avisou que a ambulância já estava a caminho. Em sua mente, sabia muito bem que o garoto misterioso que socorrera a vítima de atropelamento também havia a curado completamente, salvando sua vida. Ele não era o único com um dom por ali.

Power

Se você que está lendo isto agora é minha família, amigo, conhecido das Interwebs da vida ou googlou e caiu aqui por acaso, primeiro quero te dar boas vindas. Dado meu atual estado de espírito, esse post meses atrasado pode ser longo. Mas é necessário.

Esse blog surgiu da necessidade de escrever e me comunicar. E lhe asseguro, se você quiser falar sobre séries, filmes, desenhos ou games, garanto que sou um prato cheio de referências nerds. Sou um geek completo e procuro estar por dentro de tudo que está rolando na cultura pop.

O que talvez me diferencie da nação nerd em geral é que também sou cristão [protestante, evangélico, crente, chame do que quiser]. E sobre essa crença e modo de vida, também tenho algumas coisas a falar. Embora hoje eu tenha duramente percebido que não sei o bastante. Pelo menos não o suficiente pra compartilhar com alguém com quem me preocupo.

Sabe, você e eu somos dotados do livre arbítrio. Podemos fazer o que quisermos, respeitar a lei ou não, seguir tradições ou culturas a nosso bel prazer. Você é livre pra ser o que quiser, ir aonde preferir e acreditar no que parecer ser verdade pra você. Portanto, use bem sua liberdade enquanto a possui. Isso, suspostamente, ninguém pode tirar de você.

Você é tão livre que pode dar-se o direito de questionar Aquele que é o Senhor Todo Poderoso que, ao contrário do que você pensa, não está lá entre as nuvens, observando a tudo de Seu Majestoso trono. Não, o Deus Onipresente está ao seu lado de uma forma ou de outra. Você está tão distante Dele quanto escolhe estar. Acredite ou não, e isso vai soar clichê, Ele acredita em você. Em cada um de nós. Atrevo-me a dizer que Ele acredita até em mim. Mesmo eu não sendo merecedor. Pura e simplesmente porque Ele nos ama, independente de O amarmos ou O ignorarmos.

Eu optei por acreditar no Amor Dele. Ajudou o fato de que nasci em lar cristão? Sim. Escola dominical ajudou? Com certeza. A leitura da Bíblia me proporciona esclarecimentos? Sempre que insisto com sinceridade. Ir a Igreja regularmente para momentos de comunhão, louvor e pregação da Palavra ajudam? Pelo menos dão parte do sustento necessário. Tenho prova concreta da existência de Deus ou testemunho visual de algum milagre? Boa pergunta.

Aqui eu vou me permitir soar um pouco chocante. É a mesma palavra que compartilhei com meus amigos há semanas atrás. Em alguns momentos, eu senti vontade de tirar minha vida. Sim, isso mesmo, eu me vi cortando meus pulsos no banheiro e deixando a água gelada lavar minha vida enquanto a via escorrer pelo ralo. Já senti tamanho tormento, tamanha opressão a ponto de esquecer tudo e todos que amo e me importo, apenas pra fazer a dor parar. Mas não o fiz.

O que eu posso dizer sobre essas sensações? O melhor que posso supor é que, em alguns momentos, a vida parece ter perdido o seu sentido e o seu valor. Talvez, em alguns momentos mais depressivos, eu tenho percebido que não me importo realmente com mais nada. Que talvez eu tenha me tornado duro e insensível e infeliz. E essas sensações tem sido completamente novas para mim.

Eu jamais senti essas vontades antes em toda a minha vida. Quer dizer, como eu poderia ter coragem/covardia de acabar comigo mesmo? É porque a vida é dura demais? Os momentos de dor e dúvida são tão insuportáveis assim? Será que eu tenho medo de enfrentar meus próprios problemas, que afinal nem são tão complicados assim? Falta luz neste túnel? O caminho é estreito e espinhoso demais?

Sabe, eu não sou reconhecido pela minha paciência, bom senso, maturidade ou autocontrole. Eu posso tirar minha vida de qualquer jeito, a hora que quiser. A hora em que estiver mais fraco e desesperado, eu sei exatamente o que vai funcionar. O depois não vai importar na hora. Apenas a urgência na interrupção da dor.

Então, porque você ainda não o fez, você deve estar perguntando. Não é por mim, eu lhe asseguro. Não há pessoa que possa me impedir. Não há coisa que me faça voltar atrás. Se não fosse a mão de Deus segurando a minha, eu já teria desaparecido desta terra há muito tempo.

Em meio a minha covardia de enfrentar a vida e minhas confusões quanto a onde ir ou o que fazer, o Criador do Universo, o Senhor dos Exércitos, o Pai da Eternidade, o Príncipe da Paz desceu de Sua morada celestial, de Seu próprio paraíso tão puro e tão santo apenas para me abraçar e me dizer “não faça isso, Meu filho”.

Eu não precisei vê-Lo ou ouvi-Lo, eu simplesmente sei. A minha vida não é nada, eu sou menos que pó nesse mundo. Mas Ele se importou comigo. Ele me preserva e me protege a cada dia. Me dá a força pra continuar, a disposição pra me levantar, não deixa nada me faltar. Mesmo eu sendo teimoso e querendo me desgarrar, como o Bom Pastor que é Ele sempre veio me resgatar.

Estar aqui nesta manhã, deixando de trabalhar para compartilhar essa experiência pessoal, é a prova concreta que tenho da existência de Deus. E o milagre? É eu ainda estar vivo.

Então cara, amigo, irmão… eu não tenho o poder pra fazê-lo mudar de idéia. Não tenho o poder pra lhe explicar a Justiça de Deus ou o modo como Ele governa o mundo e permite as coisas acontecerem. Eu não tenho o poder pra afastar sua frustração, sua mágoa, sua decepção com uma instituição, pessoas ou mesmo com o próprio Deus. A mim ainda falta muito conhecimento e muita experiência que ainda estou a buscar. Eu não tenho muito o que te oferecer. Mas se você quiser, tenho olhos, ouvidos, minha lealdade, amizade e meu próprio amor.

Você pode não acreditar em Deus e se lixar pra Ele, e por mim tudo bem. Não vou condenar você. Mas se você quiser entender Deus e o que Ele representa ou o quanto te ama… então eu vou me dispor a mostrar pra você, sendo simplesmente seu amigo.

Frontier

“Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho ordenado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”. Mateus 28:19-20

Antes de subir aos céus ao encontro do Pai, Jesus Cristo nos deixou com Sua mensagem de Amor, Seus ensinamentos preciosos, Suas promessas, o exemplo do sacrifício e o mandamento que abre este breve relato. Ele disse “Ide”, no sentido imperativo da palavra. Fazer discípulos, isto é, levar o Evangelho e ensinar os que viriam a ser novos na fé. E aonde fazer novos discípulos? Em todas as nações, ou seja, em todos os cantos do mundo. Aonde fosse possível ir a pé ou em embarcações, doze homens batizados com o Espírito Santo levaram a mensagem da cruz. Aonde foram, males foram curados e almas foram salvas. Porém, por questões de logística e até mesmo perseguição, os apóstolos e seus posteriores discípulos foram limitados até suas fronteiras. Será que, mais de dois mil anos depois, ainda somos limitados por fronteiras quando o Pai nos diz “Ide”?
Quase no fim da primeira década do século XXI, o lugar mais distante do mundo está a um clique de distância. Este é o mundo globalizado do qual fazemos parte, a era da Internet, do Google, Orkut, My Space, Facebook, Twitter e blogs. As ferramentas foram distribuídas a cada um de nós e dificilmente se vê alguém que não é digitalmente incluso, a não ser por escolha própria ou carência de recursos. Cada comunidade virtual ou programa de conversação é uma forma de comunicação livre para expressar-se, principalmente para quem ouve o chamado do Pai.
Temos as condições para mostrarmos a amigos, parentes distantes ou até mesmo a curiosos desconhecidos a vida que levamos em Cristo. Não se enganem, Orkut e MSN também são uma forma de testemunho, seja nas frases que acompanham os nicknames, seja nas músicas e arquivos que compartilhamos. A fronteira do país já foi facilmente rompida. A mensagem da cruz pode atingir a América do Norte, América Latina, Europa, Ásia e África. Se você é incluso digitalmente, de que forma tem usado a Internet? Você tem agarrado a oportunidade de levar a mensagem da cruz através de seus programas e perfis sociais?
Por muito tempo, temos ouvido e lido a Palavra, participando de intercâmbios, acampamentos, workshops, devocionais, vígilias. Recentemente nossa atenção tem sido chamada a respeito da Igreja Perseguida no mundo. Agora temos conhecimento de uma realidade que, até então, parecia escondida. Em pelo menos 50 países, nossos irmãos missionários tem lutado para levar Amor, Bíblias, alimento, vestes e treinamento para almas sedentas de Cristo. Eles têm ido a regiões de domínio islâmico e em regimes ditatoriais por amor a Cristo e seus irmãos. Muitos dos convertidos se tornaram imperdoáveis por sua escolha. Muitos deles não tem Bíblia nem treinamento e mesmo assim se esforçam para alcançar outros perdidos. Bíblias tem sido enterradas nos quintais para escaparem das vistorias. Grupos pequenos se reúnem em suas casas ou mesmo em áreas florestais e desertos para orar e incentivarem uns aos outros.
Muitos de nossos irmãos no mundo não gozam de nossa liberdade para louvar e adorar ao Senhor Todo Poderoso. Já se imaginou na mesma situação que eles? Tendo que esconder tudo que prova que você é cristão? Já se imaginou lendo escondido o perigoso livro chamado Palavra de Deus? Correndo, saltando de sombra em sombra para poder abraçar um irmão e orar por ele e dizer ‘não desista, Cristo está conosco’? Essa é a realidade do mundo em que vivemos, irmãos. Por mais que o mundo pareça sem fronteiras, ainda existe a fronteira do anti cristianismo. Como uma pandemia que em semanas atinge o todo o globo, ela está crescendo e é apenas questão de tempo até que chegue até nós.
A fronteira final não é planetária, não é geográfica. Ela é humana e reside no interior de cada um de nós. Entre nossos costumes, nossas obrigações e nossa interminável rotina, é fundamental nos atentarmos a quem está ao redor, clamando em silêncio por uma palavra de amor, pelo toque do Salvador. Será que temos realmente deixado de lado o medo, a dúvida e a vergonha de ser cristãos? Temos realmente deixado de lado a nós mesmos para compartilhar a mensagem da cruz? Será que quando Ele chamar, teremos a coragem e ousadia de ir aonde a Palavra ainda não chegou? Poderemos lutar contra os que perseguem nossos irmãos e incentivar os cristãos oprimidos ao redor do mundo? Mesmo que isso custe nossas vidas?

Mom

Uma vez alguém me perguntou o que era mãe para mim. Fiz uma breve reflexão a respeito do significado não apenas da palavra mas de todos os eventos que se desenvolvem ao redor da palavra. Permitam-me compartilhar um pouco convosco.

Mãe é onipresente. Teoricamente, ela não deveria sair do nosso lado em momento algum quando somos recém-nascidos. Afinal, supostamente estamos constantemente em seus braços. Ela nos embala para nos acalmar, nos dá tapinhas para arrotar, nos dá o seio para nos alimentar e o calor para não chorar.

É ela que nos dá a mão quando damos os primeiros passos. Que nos limpa quando a fralda está suja. Que aquece a água para nos dar banho. Que inventa aviões e trens comestíveis para abrirmos a boca. Que canta que a cuca vem pegar e pra tomar cuidado com o boi da cara preta. E que conta as historinhas com moral no final.

Mãe é onisciente em virtude dessas coisas. Digo isso porque ela pressente quando algo não está certo. Seja a respiração, a tosse, o espirro, ela sabe que remédio precisamos. Joelho ralado, galo na testa, febre, não há como não curar com carinho, amor, band-aid e pomada.

Mais do que identificar viroses, ela é capaz de identificar mudanças de humor. Ela sabe o que dizer se nos dispormos a falar. Ela sabe nos acalmar se abrirmos nossos braços. E ela sabe disciplinar quando desobedecemos. Mãe sabe, mãe entende. E mesmo que seja difícil, ela se esforça mais ainda.

Mãe é onipotente. Por isso grudamos em sua saia ao sair por aí. Nos escondemos à sua sombra para nos protegermos, como se fosse o escudo mais resistente ou a rocha mais antiga. Diante da implicância dos vizinhos e colegas da escola, não corremos a contar tudo para nossa mãe? Quem sabe ela não dá uma surra neles?

E porquê recorremos à força dela? Pois nossas nádegas bem conhecem o poder de uns tapinhas bem merecidos. Por ter esse poder, ela também se torna temível. E não adianta correr pois suas pernas são mais compridas e mais fortes que as nossas franzinas. E às vezes nem é preciso sentar a cinta no lombo. Uma conversa sobre decepção e mágoa é o suficiente pra nos levar as lágrimas e prometer nunca mais fazer isso ou aquilo.

Porquê eu disse isso tudo? Porque a mãe é Deus aos olhos de uma criança. Antes mesmo de frequentar uma escola dominical e ouvir as maravilhosas histórias da Bíblia, a mãe é a entidade da qual dependemos e na qual confiamos para tudo. Cuida de nós, nos protege, nos alimenta, nos aquece, nos suporta, nos disciplina, nos ensina. Sempre nos acha lindos. Sempre nos aponta o caminho. Sempre torce por nós. Acima de tudo, se sacrifica por nós… por acreditar em quem somos e em quem viremos a ser.

Que todo dia seja um dia pra refletir no papel da mãe em nossas vidas.
Um Feliz Dia das Mães pra senhora que é avó, pra senhora de meia idade, pra mãe jovem e pra mãe adolescente.
Que entre nós haja compreensão, paciência, tolerância, amizade e acima de tudo, o amor.